:Confiança e solidariedade em palitos

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Confiança e solidariedade em palitos

Projeto ‘mede’ honestidade dentro da UTFPR, com a venda de picolés contando apenas com a consciência do aluno em depositar o valor do sorvete; objetivo é educar para o fim do "jeitinho brasileiro"

Cornélio Procópio - Desde o início das aulas no campus da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), em Cornélio Procópio, no fim de fevereiro, os alunos estão se deparando com um comércio diferente no hall de entrada: um freezer com vários picolés sendo vendidos a R$ 2 a unidade. O intrigante é que não há funcionários para realizar a venda, basta o interessado depositar o valor em uma urna localizada ao lado do freezer. Sem câmeras de vigilância ou sensores para verificar se o depósito está sendo realizado, a arrecadação é feita contando apenas com a honestidade dos compradores.
O projeto "Confiança e Solidariedade em Palitos" foi idealizado pelo professor do departamento de Engenharia Elétrica André Luis Shiguemoto, após viver alguns anos na Noruega para conclusão do doutorado. "Fiquei surpreso quando vi que lá o sistema de transporte funcionava dessa forma. Em muitas lanchonetes o cliente paga voluntariamente pelo que consumiu e ainda tem de apanhar o dinheiro do troco, sem fiscalização alguma. Então pensei: por que não funcionaria no Brasil? Quando iniciamos o projeto muitos me chamaram de louco, diziam que iriam nos roubar até o freezer, mas o resultado tem nos surpreendido."
O freezer comporta cerca de 400 picolés, que são consumidos em aproximadamente 48 horas. Até a última semana foram vendidos 2.399 sorvetes, e apenas 50 não foram pagos. "Brincamos que os compradores esqueceram de fazer o depósito. Isso nos dá uma média de 2,4% de ‘esquecimentos’, o que considero baixo", diz o professor. Ele acredita que o ambiente universitário auxilia a manter o bom índice. "Não sei se o resultado seria o mesmo se o freezer fosse deixado em uma praça qualquer da cidade."
Num momento em que a corrupção é tão fortemente debatida na política nacional, e dentro da própria UTFPR de Cornélio Procópio, o projeto vem ressaltar que os desvios de conduta estão presentes também nos pequenos atos cotidianos. "É a pessoa que fura a fila do restaurante, que estaciona em vaga destinada a portadores de deficiência, que quer tirar vantagem de qualquer situação, sem enxergar que essa forma de agir prejudica o coletivo. Se ninguém pagar o sorvete teremos que encerrar as vendas por conta do prejuízo, e não haverá mais picolé. Na vida também é assim, tudo funciona melhor quando cada um cumpre corretamente o seu papel", destaca o professor.
O projeto conta com o patrocínio de um banco e duas empresas, que forneceram a estrutura e o capital inicial para compra dos sorvetes. "Um fabricante de sorvete nos repassa a preço de custo, R$ 1 cada picolé. Com o dinheiro das vendas, compramos mais sorvetes, e o excedente é revertido para aquisição de materiais de limpeza, que são doados a entidades assistenciais da cidade", explica Shiguemoto. A intenção é expandir o projeto para outros campi da UTFPR futuramente, alcançando também instituições externas à universidade.
Apesar de ser um projeto recente, a maioria dos levantamentos mostravam um crescimento na inadimplência. "Acho que o pessoal se acomodou, viu que realmente não há vigilância e relaxou. Por isso as ações educacionais também são importantes", sugere a estudante de Engenharia Eletrônica, Amanda de Oliveira Chagas. A arrecadação de cada remessa fica exposta junto ao freezer e também na internet.
Mas no levantamento realizado ontem, uma boa surpresa: foram pagos seis sorvetes a mais do que o volume deixado no freezer. André Shiguemoto comemorou os pagamentos extras e avalia que foram motivados pelas campanhas de conscientização realizadas na última semana entre os alunos, ressaltando o caráter solidário do projeto.
O professor informa que o projeto prevê a realização de palestras e debates junto ao público da universidade, ressaltando que o objetivo principal é educar, além de despertar o sentimento de confiança e filantropia. "A honestidade não tem relação somente com o nível de instrução, mas também com os exemplos que temos dentro de casa, são valores que cultivamos".
O estudante de Engenharia da Computação Wirlley de Oliveira é um dos compradores assíduos do sorvete. "Sempre paguei, e nunca vi alguém roubar. Acho ótima a proposta de debater a questão da confiança, e ainda poder ser solidário", afirma. Já o acadêmico de Engenharia de Controle de Automação, Celso Miranda Fonseca, confessa que não acreditou na honestidade dos colegas inicialmente. "A gente fica com o pé atrás, sabendo da realidade do país onde moramos. Mas fiquei feliz com o resultado, é muito legal saber que ainda é possível acreditar nas pessoas".

JEITINHO
O professor e sociólogo de Cornélio Procópio Wellington Joslin, explica que o termo "jeitinho brasileiro" é um conceito que se refere à forma como muitos burlam ou relativizam aquilo que é proibido por lei ou moralmente. Segundo ele, o conceito se tornou tão forte em nosso país devido às injustiças sociais. "Foi uma forma que o indivíduo comum encontrou para se proteger de um Estado que não é justo, não trata todos de forma igualitária, que é bom apenas para cobrar (impostos), sem trazer serviços de qualidade, ou seja, é resultado da falta de crença na honestidade e eficácia dos governos e instituições".
Para Joslin, o "jeitinho" é perigoso para a democracia. "A premissa básica do bom funcionamento democrático é o comprometimento do cidadão com o bem comum". Para ele, o projeto da UTFPR é importante, pois "traz a reflexão de que mudar a nossa forma de agir na sociedade é tão importante quanto investigar e punir a conduta de corruptos criminosos. A sociedade só irá melhorar quando todos perceberem que a nossa ação no meio social deve ser orientada no sentido de tornar a vida de todos melhor".

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Fonte: Folha de Londrina
Por: Antonio Delvair Zaneti
Data: 23/03/2016 13h43min

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